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O dia que fizemos tudo errado!

Missão na Nigéria

Todo dia eu volto à África.

Hoje meus pensamentos voaram até a cidade de Okon-Eket, cheia de vilarejos paupérrimos e pouco acessíveis. Foi lá que “fizemos tudo errado”, ou ao menos, tudo diferente do que já estávamos pré-determinados a executar naquela que era a fase final da expedição. Fase na qual o grupo visitava o “bicho” sem ser convidado, dentro da casa dele, em vilas, igrejas e lares.


Nessa altura, nós não dávamos mais conta do sol, do suor, do sono e nem de quem somos. Aculturamo-nos. Infiltrados, andávamos com a nossa lucidez misturada à “maluquês” devido ao ritmo alucinante com que as coisas aconteciam. Hoje percebo que nos esquecemos do tempo e o tempo se esqueceu de passar. Sempre que o Absurdo determina a ordem do dia, a sensação é de estar numa viagem para fora da própria existência, como num sonho, vivendo um processo atemporal, um parêntese cronológico tomado de um conteúdo todo surreal, ilógico, irracional e inconcebível. Contudo, nada nos demovia da certeza em Deus de que tudo, o tempo todo, ia dar certo! Agora que eu analiso essa fase, suponho que a coleção de batalhas vencidas nas primeiras semanas talvez estivesse, finalmente, nos automatizando. Já não havia tanto mistério no fenômeno todo. As personagens eram as mesmas: pastores-bruxos, crianças-bruxas, “jesus” pró-bruxaria, Jesus anti-bruxaria; e finalmente o mesmo desfecho: a vedação de uma rachadura na parede espiritual de algum vilarejo ou família visitada. Era isso. Era assim. Graças a Deus! Chega, então, mais um dia. Não lembro qual. Mas lembro que o Clayton, o Cesar e o William se revezavam entre as casas de um bairro e a Tenda do Caminho montada numa praça de alta circulação. Jojo tomou a câmera de vídeo e o Leonardo Lepsch, sua super-máquina fotográfica para nos seguir a uma incursão. Lá fomos eu e o Leo para o dia que o “script” foi diferente dos “roteiros programados”. Eis a Missão: Buscar uma criança de nove aninhos que estava em pleno processo de “tratamento espiritual”: trancafiado numa igreja há quase três meses, passando por sessões e mais sessões de “libertação” com direito a rituais macabros, o menino fora estigmatizado pelos próprios parentes, que se mantinham submetidos ao pagamento mensal da “internação” do pequenino até que o mesmo tivesse “alta” e pudesse voltar a sua vidinha em casa. Essa era a “ficha”! Até onde o carro conseguiu chegar, fui orando, sob o vento quente de sempre, para que uma verdadeira operação de resgate fosse instituída, por força do Espírito! Pedi que a ação estilo “pombo-serpente” dos dias anteriores prevalecesse em cada um de nós também nessa manhã. Daí, fechei meus olhos. Concebi na minha mente que em poucas horas eu teria a criança em meu colo, dentro daquele mesmo carro. Eu não a conhecia, mas já a amava. Eu nem a tinha visto, mas ela já era minha! Minha. Entretanto, voltei para a cidade com os olhos cheios de vazio, envidraçados... Voltei fitando o nada, até ser finalmente distraído por um verme, uma espécie de larva, um sei lá o quê era aquilo que estava andando na minha calça fabricada em Gana. Voltei sem criança nenhuma. E aquela “minhoca” só podia estar tirando sarro de mim, “sentada” na perna que guardei para trazer salvo o menino! Desgraçada...

***
Eh! Tem dia que a gente se sente um verme mesmo! Mas vocês fariam diferente? Fariam como, então? Vejam: O carro ficou onde a estrada acabou. Estão construindo um novo caminho. Fomos atolando os pés, até a igreja-prá-lá-do-fim-do-mundo! Apareceu um barraco todo torto feito de madeira e concreto e enfiado em meio às árvores de copas altas. Era a igreja do sequestrador. O lugar não tinha nome, nem placa, nem chão, nem teto, só umas telhas cobrindo quase metade do “salão”. Uma porta que não fechava direito escondia o interior da “construção”, que fácil se fazia aparecer por suas brechas. Vi que estava cheia de cadeiras, um altar à frente e uma mesa aos pés da qual algumas mulheres mantinham-se agarradas. Era uma igreja sim. Era ali. Uma jovem senhora veio nos receber vinda da casa ao fundo do “templo”. Acanhada pela surpresa da “visita-branca”, ela parecia meio tensa. Avisamos que viemos em paz para conversar sobre uma criança que a Stepping Stones Nigeria denunciara que estava “internada” nesse endereço. A moça era a esposa do pastor. Pedimos para falar com ele, e ela, prontamente foi procurá-lo. Enquanto esperávamos, vimos a Diana, da ONG inglesa, agarrada a um pequenino. Ela reconheceu o FAVOR! Sim, esse era o nome dele! Nome inglês, que se pronuncia feivor. Favor, o “menino-bruxo”, estava vestido sem as roupas em farrapos da maioria das crianças. No rosto, também não tinha as expressões sem expressão dos pequenos que, aos montões, viviam feitas zumbis do estigma, sindrômicos. Ao contrário, esse mocinho tinha o olhar até cheio de contentamento. Apresentamo-nos, e ele se curvava com elegância, sendo seguido por alguns bebês, crianças peladinhas e barrigudas que, assustadas conosco, mantinham-se agarradas à mão do jovenzinho cuidadoso. O pastor estava no campo, mexendo na terra. Chegou pingando de suor. Esbaforido e introvertido, nos cumprimentou: Sou Samuel! Sua mulher lhe trouxe rápido uma camisa de botão e fomos convidados a conversar. Entramos no “templo” e propus sentarmos em círculo para dar lugar ao Mfon, nosso motorista.

Missão na Nigéria

A cada visita percebíamos sua crescente atenção as nossas palavras. O Mfon é um negro enorme que chorou quando o Clayton lhe presenteou com a camisa do Santos que o Robinho vestiu. (Mas, não se enganem com o Mfon... Ele tentou arrancar a orelha de cada oponente que encontrávamos!). Quase sem perceber ele já transitara da assistência neutra e profissional para aquele estado onde as coisas não são mais feitas por dinheiro, mas pelo gosto, pela amizade e agora, pela Causa, que se tornaria a sua própria! O Mfon já estava na roda. Naquela roda e na roda viva da Vida com Cristo!
Missão na Nigéria

O Leo apresentou o “Way to the Nation” ao pastor Samuel e falou da Missão “Pequeninos na Nigéria”. Enquanto isso, fiquei olhando os quadros de Jesus olhando prá nós. Tinha Jesus católico, Jesus ocidental, Jesus inglês... As mulheres ao chão estavam deitadas junto ao altar, e suas crianças, os bebês que o Favor trazia, as rodeavam. O pastor disse que elas estavam ali jejuando por causa de seus muitos sofrimentos e carências.
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Olhamos, deu muita pena, mas queríamos a história que fomos buscar.

Favor, nove anos.

Seus pais morreram. A vila acusou o menininho e o expulsou. Seu tio o recolheu, mas não queria cuidar dele, não queria o “estorvo”. Então, o levou ao pastor. O casal de pastores praticamente adotou a criança. Nos olhos da mulher vi muito amor e nenhum medo ou culpa, muito diferente dos rostos que mal levantavam a cabeça para nos encarar. Eu disse a ela: “Será que com um olhar tão bom, vocês podem estar fazendo mal a esse pequenino de Jesus?” Ela só meneou a cabeça, negativando a questão. Pedi para que o Mfon nos desse uma noção em dólares do valor mensal que o tio deixava lá. Era uma esmola. Pensão de quem não ama mais. Quantia irrisória. Triste. Por outro lado, o pastor se dizia feliz porque, apesar de tudo, naquela semana ele tinha conseguido uma difícil vitória: colocar o menino numa escola!
Missão na Nigéria

Rimos todos juntos de gratidão.

Que cena estranha: Nós, o pastor-bruxo, sua meiga esposa, a criança estigmatizada e FAVORecida naquele cenário coberto de símbolos cristãos, mas repleto de prática pagã. E nós ali, irmanados todos.

De repente, lembrei-me de que eu era um “soldado” e cortei a diplomacia. Em português, combinei com o Leonardo que não teríamos pena do moço e confrontaríamos suas práticas. E passo a passo, repreendendo-o com brandura, fomos instruindo-o nas Escrituras sobre tudo que se mostrava equivocado na crença dele.
Missão na Nigéria

“Está vendo esse Jesus aí na parede? Então, pastor, vamos mostrar na sua própria Bíblia o que Ele pensa sobre crianças.” E passamos a recitar em alta voz os versos onde Jesus abençoa crianças. Ele não abençoou somente crianças especiais feito Sansão ou João, anunciados por anjos; e nem somente crianças muito amadas e consagradas na infância, como Samuel ou José do Egito. Não. Jesus abençoou todas as crianças a ele apresentadas. Assim como a Cruz é sobre toda a humanidade; as mãos de Jesus continuam impostas sobre os pequeninos, apesar de seus discípulos continuarem a obstruir o Caminho dos meninos!

Acrescentamos que Cristo se mostrara indignado quando o assunto era criança e o abuso, constrangimento ou embaraço delas: Repreendeu os discípulos-trapalhãos; porteiros do Reino. Exortou os que, intencionalmente, faziam tropeçar e cair algum inocente pequenino, na fé ou na idade. Sugeriu-lhes que se atirassem ao mar sob o peso de pedra de suas culpas antes de sufocar uma criança, bem como garantiu recompensa a quem recebesse qualquer um deles, matando a sede dos que os representam na Terra. Avisou-lhes, ainda, que o REINO era das crianças e de quem se apresentasse como uma delas! Revidou, de igual modo, a provocação dos fariseus no Templo, quando questionaram a bagunça musical ao redor dele (“Bendito o que vem em nome do Senhor!”), assegurando que o perfeito louvor só pode sair da boca de pequeninos de colo e mesmo dos que ainda mamam! Jesus foi ainda mais longe. A gente O percebe se “orgulhando” de que o Pai tenha escondido seus mistérios dos sábios anciãos, e revelado aos pequeninos de coração, as crianças de alma!

O pastor só ouvia e concordava com a cabeça. Devolvi a Bíblia e lhe perguntei:

- “Como essa criança que tem um anjo constantemente diante da face do Pai que está nos céus pode ter nela incorporado um espírito de feitiçaria?”

Ele só calava. “Hein, pastor? Tell us, please...”. Nada.

O Leonardo queria explicações sobre o ritual de libertação. O pastor balbuciou uma resposta envergonhada, mas o Leo entendeu que ele orava e... “pingava”... “pingava”... Não disse o quê e nem onde...
Missão na Nigéria

Então, olhando ainda para o Samuel, pedi ao menino Favor que viesse a mim. Eu o sondei e revirei de todo lado, procurando nele alguma marca, mancha, qualquer coisa... O pastor também havia dito que durante o tratamento a criança tinha que dormir de modo a não se mexer, pois quando o seu espírito saia por aí para aprontar bruxarias precisava ter o corpinho do menino na mesma posição para sua “re-entrada”. Pensei na hora: Esse menino dorme amarrado! Examinei seus braços, mãos, punhos, pés... Uma perícia. Não encontrei nada.

-“Feivor, você é feliz aqui?” – Eu perguntei, tendo-o de pé junto a mim.
- “Sim!”
- “Você quer voltar para casa?”
- “Não!”
-“Por que não?”
-“Porque eu gosto deles”, ele afirmou olhando para o casal com ternura. “Essa é minha família”.
-“Você está feliz na escola? Gosta de ir para lá?”
-“Sim, muito!”
-“Você é um bruxo? Você sente que é um bruxo?”
-“Não”
-“Você promete que não vai deixar ninguém fazer você acreditar que é um bruxo?”
-“Sim”
-“Você sabe que Jesus te ama como filhinho dele?”
-“Sim”
- “Você tem medo de Jesus?”
-“Não”.
-“Pastor Samuel, olhe para mim!”


(Bom, confesso que a entrevista com o menino-todo-cheio-de-graça me amoleceu)

Com a mão no ombro pastoral completei: “Irmão, Jesus nunca praticou nenhum ritual de libertação. Ele impunha as mãos, abençoava e pronto! Então, hoje acabaram seus rituais aqui, pastor. Não precisa mais. Você já fez o que pôde. De hoje em diante, você vai fazer assim...”

Então, coloquei minhas mãos sobre a cabeça do menino e orei: ‘Favor, você está livre de todo o mal. O diabo não pode usar você! Você é um favor imerecido a esse mundo e já foi abençoado por Jesus! Amém!’

Pedi ao Leonardo que, impondo as mãos, orasse pelo Samuel e sua esposa, por aquele lugar de sofrimento, dor e cinzas! O Leo orava e com a mão no peito dele, eu senti quando o pastor fibrilou, gemeu por dentro, deixou escapar um tranco de dor. Abri meus olhos e o vi chorando.

Chorou... Acho que ninguém nunca o tinha abençoado, tocado, exortado... Outra criança abandonada.
***

Estávamos indo embora e observei o Mfon sentado num canto, com cara de pranto.

“What´s matter, Mfon?”
“Eu ia pedir para falar, Marcelo, mas preferi calar” – ele dizia, agoniado.
“Então me fala, meu irmão...”
“É que eu penso que, pelo que vocês têm lido na Bíblia sobre Jesus, bastava que eles só fizessem como ela manda fazer e mais nada? Por que ele tem a Bíblia se não usa?”


Só lamentei. Não respondi. Era a hora e o tempo dele. Era seu encontro. O Mfon não estava percebendo, mas já fazia alguns dias que ele não era mais só nosso motorista, pois seu coração estava sendo dirigido pelo Evangelho! Sem heranças religiosas, tudo aquilo era muito confuso para quem estava percebendo que Deus é Amor!

Fomos embora, passando em meio a uns matos altos... O pastor nos acompanhou e ao chegar ao carro, eu não sabia se o abraçava ou se o ameaçava!

O Leonardo fez as duas coisas, e no ouvido dele disse com gravidade: “Eu sei que foi sangue o que você pingou nos olhos dele, sei que você pingou seu próprio sangue nos ouvidos dele; e se você tornar a fazer isso, eu também vou saber! Você está proibido de fazer isso em nome de Jesus! Amém, meu irmão?”
“Amém! Sim, Senhor!”
***

Entramos no carro e nos distanciamos daquele lugar onde o caminho ainda estava sendo construído... Quando lancei pela janela o vermezinho, aquela larva que estava em minha perna, pensei o que eu estava fazendo ali se não tinha estrutura alguma para levar um pequenino desses conosco. Elaborei, em seguida: “E como levar uma criança que simplesmente está bem em sua síndrome de Estocolmo?”

E quem me dá o direito de fazer isso? Só por que acho que é tudo grana, poder, maquinação e paganismo cristão, eu posso, então, mexer nas estranhas do coração alheio? E se for por amor...? E se o internato espiritual virou adoção afetiva? E se a libertação virou afeição? Quem conhece os caminhos do amor?
Sim, e se for expressão esdrúxula de nossa humanidade caótica, cheia de paradoxos? Pode ser que tudo seja um conjunto indecifrável de ignorância, óbvio analfabetismo, cultura pagã, cuidados pastorais, preocupações de maternagem, espírito colonizado, falta de informação e vontade de fazer as coisas certas, sem, contudo, sabê-lo!
E se invés de ser um seqüestro para enriquecer bolsos sacerdotais, aquilo tudo seja só o poder da miséria matando-os? E se ao contrário de astúcia, seja ingênuo messianismo, ânsia por libertar, arrancar a chaga, vencer o mal? E se não for paganismo, mas só falta de instrução no Evangelho?
E como ensiná-lo no Caminho sem colonizar sua própria jornada de fé, se seu espírito é tão brando e domável?


Creio, então, que cruzamos com um irmão confuso lutando com as armas do Império das Trevas nas trincheiras alheias.

Sim, por essa eu não esperava: Encontramos um filho da Paz do outro lado do campo de batalha.

Fomos ‘sequestrar’ uma criança, fomos sequestrados e sequestramos seu sequestrador!

O Samuel foi transferido para o Reino do Filho do Amor!

“O Amor tem feito coisas...”

Marcelo Quintela
Santos/SP
É Carnaval no Brasil/2010
Missão na Nigéria

OBS: Fomos atrás de um Favor de Deus e ganhamos muitos outros! Dois membros do “Nigerian Way to the Nations” visitarão o Pastor e seu refenzinho nos próximos dias, conforme instruções que passamos semana passada. O Mfon é o ... digamos... “motorista”.

FIM: "Eu vou embora, mas nunca digo adeus"!

Missão na Nigéria



AMANHECEU NOSSO ÚLTIMO DIA NA ÁFRICA!
Dia 19 de Janeiro

Despedimos-nos de muita gente querida, discípulos amados que andaram conosco todo o tempo e fazendo assim, iniciaram, eles próprios seu andar com Jesus.

Sair desse campo de batalha não é fácil. Como todo lugar onde a loucura acontece à luz do dia, esse lugar que se põe escondido do resto da Terra.



Então, num barquinho-canoa que mal nos continha sem virar, ainda nos acompanharam três amigos que se auto-promoveram nossa “equipe de segurança”. Além deles, iam nossas malas, pranchas de surf, câmeras de vídeo e fotos com o registro visual de tudo que temos escrito nesse diário.

O barco correu o rio Níger, imenso e assemelhado aos afluentes amazônicos das minhas primeiras experiências transculturais. E aportamos em outro Estado da Nigéria: Cross River, na capital Calabar.

Um motorista de van incrivelmente bêbado nos levou até o aeroporto local e, como nossos amados “seguranças” continuavam conosco colados, ficamos todos mais apertados dentro do carro do que estávamos antes no barco. Despedir-se deles foi triste. Estamos torcendo muito para que eles reguem o que semeamos em sua terra. Constrange ver uns negões altos e fortes chorando o mesmo choro fino e aflito das crianças que também deixamos. Sei que o sentimento deles é o mesmo que o delas: De abandono.

Um avião todo velho nos levou até a maior cidade do país, de onde se parte para o exterior. Mofamos lá o dia inteiro em mil check-in e check-outs devido aos rigores impostos aos nigerianos depois que um deles quase explodiu um avião americano. Mas, nesse aeroporto, pela primeira vez durante esse tempo, almoçamos “dignamente”. Comida “normal”... Sabe arroz, batata, frango...? Coisas do nosso dia a dia que desapareceram do cardápio no meio do nada-africano.

Chegou a noite e finalmente embarcamos rumo à Europa. Descemos em Madrid já era dia 20, aniversário da minha esposa, e lá começamos a nos separar: Os Leonardos embarcaram para Londres, e os demais, para o Rio de Janeiro.

Agora, já passadas cinco horas de vôo, o Jojô está ouvindo música, o William resolveu começar a falar inglês – feito efeito retardado, pois na Nigéria ele só se comunicava por sinais! O Clayton, sempre muito ativo, está aqui andando de um lado para o outro... Como as janelas estão fechadas, não tenho qualquer temor que ele se jogue... De vez em quando peço um suco só para dar finalidade aos seus passeios pela nave. O Adailton está aqui do meu lado tomado de uma rinite alérgica infinita (eu já estou todo molhado... putz...), porque o aviãozinho que fez o itinerário na África tinha um cobertor altamente povoado de ácaros... Foi nosso último contato com os insetos na África... Os outros voam sozinhos mesmo: uns helicópteros que picam com raiva, umas mariposas gigantescas, formigas pré-históricas...
Eu estou olhando pela janela.

Da Espanha, percebo que voltamos à África, sobrevoando o deserto do Saara, chegamos a Dakar e desde agora a pouco, abaixo de nós só há o mar, o Atlântico, oceano que banha minha cidade de Santos.

Santos...

Ali nasceu a segunda estação do Caminho da Graça! Gente terna e apoiadora...

Ali tenho uma casinha de varanda, por fora toda branca. Por dentro toda revestida de amor, simplicidade, ternura, perfume, recordações de nações visitadas e uma criançada levada, que, na minha ausência, todo dia se auto-convocava a orar por mim, pelos meus amigos comigo e pelos pequeninos visitados por papai e que nunca tiveram um pai.

Tem sido assim a cada Missão. Vou embora e volto para casa e para minha própria secularidade e sustento. Por onde passei fiz laços. Nunca disse “adeus”. O mundo é pequeno. Mas voltar para casa – confesso – é sempre a melhor parte da missão de quem parte.

Vejo dentro dos olhos dos meus amigos de missão: Cada um de nós só pensa agora em rever esposas e filhos, amigos e parentes. O último beijo foi em meio aos fogos do ano virando... E o próximo beijo, quando descermos daqui, virá das profundidades abissais que moram no nosso íntimo, como as do mar abaixo do avião: na superfície só haverá o azul e a alegria do re-encontro; mas nas entranhas silenciosas das lembranças do Campo, quem nos livrará carregar dessa uma viagem quase tudo que se leva de uma vida?!

Vamos desembarcar!

Alegria nos encontros. Silêncio na alma.
Fim... do Começo!

Marcelo, sobre o Atlântico Sul.

A dor de ver!

A dor de ver!


A DOR DE VER!

Na terceira fase da Missão PEQUENINOS NA NIGÉRIA, pareceu bem ao Espírito e a nós, descer dos púlpitos, abandonar as conferências dentre os que detêm a primazia no meio do povo, e migrar para o “front”, entrar nas trincheiras para a guerra “mano a mano”, olhos nos olhos! Cara a cara com a realidade!

Ah! E que dura realidade! Violenta! Passados dois dias inteiros de batalha campal e aberta, minha alma amanheceu com um grito entranhado, nunca libertado, da dor de ver.

Ah! Se eu pudesse colocar você dentro das minhas pálpebras! Depois que a gente vê as coisas que tem visto não dá mais para fingir que não viu.

Não me refiro à pobreza extrema. Os pobres, sempre os teremos conosco... Falo a respeito da mais estranha categoria de estigmatização infantil. Tenho por certo que uma bomba de insanidade varreu a humanidade que um dia possa ter existido aqui.

Agora... para qualquer lado que se olhe, está tudo lá... É difícil apagar. Ficou estampado, marcado, manchado. É um painel de horrores e o famoso clichê se aplica aqui: É cenário de guerra civil. Tem sangue, mosquito, estupro, abutres, mutilação, monturo, extorsão, maldição, feitiçaria, tumores, exploração, correntes, medo, terror cristão, desencanto e morte.

Nós nos tornamos máquina de evangelizar, que é para ver se, ao menos, a gente belisca essa coisa nojenta que domina o ar! Esse grupo parece uma equipe “caça-fantasmas”, em meio a mais fantasmas do que se podia imaginar! Parece que a gente nunca mais vai embora! Vejo cada um desses soldados: A gente não pára de pregar o tempo todo que é para dizer ao caos que somos Vento contrário! De súbito, vem uma Força para não desanimar! A gente se poupa do óbvio e se dirige ao absurdo!

Pensar, por exemplo...
Pensar é o tipo de coisa que já paramos de fazer faz tempo! Aliás, parece que tudo “faz tempo...”.

É difícil explicar: Quando a gente pensa que isso é cultural, tribal, pagão e milenar; fica evidente que é religioso, cristão-folclórico, atual. Quando pensa que é religioso então, percebe o pano de fundo absolutamente cultural. Quando, finalmente, se conclui que é religioso-cultural, vê que tudo não passa de MÁFIA. É business! É grana! É o diabo... Mamom!

Porém, mais triste do que enxergar esse cenário de guerra infanticida é perceber que o monstro segue adiante sem dar conta que você existe para lutar contra ele. Para cada estandarte que a gente ergue, se levantam dez outros contrários na cidade!

O que existe na África Central existe em todo o mundo; especialmente, onde existe miséria humana e tráfico de drogas, por exemplo. Aqui, contudo, corre o tráfico de alma! Muitas almas! As almas estão acabando por mais gente que nasça... Está aberta a temporada de caça as alminhas que sobraram: as das crianças!

Já vi muita criança sem alma vagando esse lugar! Andam leeentas, feito velhinhos encurvados, sem expressão ou gesticulação. Olhar vago, perdido, entreaberto, confuso. Espectros calados, semi-vestidos, silenciados...

O mal nesse lugar é diferente da fome, da peste e dos terremotos: Aqui, a matança dos inocentes bruxificados é um negócio epidêmico, abrangente, crônico, tentacular, covarde, conveniente, coletivo, impregnado e palpável. É aqui! É aqui mesmo – a geografia do mal!

E “AQUI” se entenda todo e qualquer lado para onde se caminhe a partir desse mirante de discernimentos aonde viemos parar... Sinceramente, estamos no maior matadouro de utopias; isso aqui é a esquina da desesperança total; isso aqui é o “fim do caminho”; é pior que a morte do corpo, é sua ameaça diária, é a sua sombra espreitando os inocentes, comendo gente, sitiando a gente!

Do contrário, alguém pode me responder a questão cotidiana: As crianças que salvamos para onde vamos levar? E se no único orfanato não tem mais lugar? E se voltar para casa é mais perigoso do que qualquer noite sem luar? E o que fazer quando você tenta encontrar um lugar e ao voltar para buscar não tem mais criança lá? E quando tem mais do que você voltou para levar? Se escolho uma, o que eu faço com a outra que vai ficar?

Aqui tem uma fábrica de produção de crianças-bruxas! Os bebês que cuidem uns dos outros! Adulto é um perigo! Adultos são bichos medrosos! Sim! As crianças vivem tensas. A qualquer momento um bicho-gente-grande pode quebrar seus bracinhos, rasgar suas carnes, pingar sangue em seus olhinhos, forçar seus corpos, transformar cada criança num deles!

Chega.
Vou deixar você dormir.
E não vou contar em casa o que eu vi aqui.

Marcelo Quintela (Way to the Nation)
Aqui

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Você pode acompanhar tudo que está acontecendo no dia-a-dia deles pelo Diário de Missão... basta acessar aqui!

CHOVEU NA ÁFRICA! A aridez tem seus dias contados...

Missão na Nigéria


Pouco mais de 400 pessoas vieram nos ouvir em campo aberto ontem, na tarde de domingo. Havíamos distribuído em torno de 1600 convites; então, julgo que tivemos ótimo comparecimento, graças a Deus. Caímos na “simpatia do povo”.

“Don´t bring any Money; Just bring your heart!” – era a forma como o Jojó abordava cada passante durante os dois dias que circulamos pelas ruas repletas de gente!

Tínhamos 100 cadeiras. Alugamos mais 100. Outras 200 pessoas ficaram de pé. Todos muito curiosos!


Missão na Nigéria


Pastores vinham chegando engravatados. Ternos bonitos. Alguns exigiam que um de nós fosse recebê-los na, digamos, “entrada” da “convenção”. Outros vieram entusiasmados para participar no apoio litúrgico do evento. Todos muito amigáveis e colaboradores. Nós procurávamos distribuir as funções de modo que partes opostas se integrassem e não brigassem entre eles.

Graças a Deus nosso coração estava cheio de paz e de objetivo. Recebemos quem tinha que ser publicamente recebido e dividimos o almejado microfone entre apóstolos, reverendos e evangelistas presentes. Eles agradavam o povo presente.

Um deles nos trouxe uma relação imensa de autoridades eclesiásticas a serem citadas, aplaudidas e homenageadas. Fizemos o mínimo necessário. Negociações o tempo todo: “raspamos a cabeça e circuncidamos Timóteo”. Vestimos suas roupas, a todos cumprimentamos com um sonoro “Praise the Lord!”... Nós vibramos com a apresentação de um coral de “crianças-bruxas” recolhidas no orfanato do Sam e trazidas para a Cruzada por um velho microônibus. Cantaram um “gospel negro” lindo que elas próprias compuseram, entregando a Deus o Perfeito Louvor!


Missão na Nigéria


Então, um pastor local responsável por anunciar o pregador, chamou em voz alta, carregada de suspense: “Ele!!! Direto do Brasil!!! Ele!!! O homem de Deus!!! Ele! Ninguém menos do que oooooooooooooh... Reverendo Leeeeeeeooooooooooooouuuuuuuuuu Santoooooooos!!!!!”

Quase gritei GOL! Pensamos que o Rocky Balboa ia invadir o que eles chamavam de “plataforma” (Nada mais, nada menos que o mesmo areão que todos nós estávamos). O Leonardo ficou tão atordoado com a tal chamada triunfal que o mineirinho de Londres chegou lá na frente esquecido de toda a programação. Graças a Deus ele se lembrou de chamar o pregador da noite. “Ninguém mais e ninguém menos que o Reverendo Cesar”! Deixa-me explicar: O reverendo Cesar é ninguém mais e ninguém menos que nosso amigo Adailton César! “Adailton” é uma palavra simplesmente impronunciável aqui; e “reverendo” é a titulação mínima necessária para que alguém faça uso do microfone a fim de abrir a Bíblia e pregar com autoridade!


Missão na Nigéria


Lascou-se! Lá fomos nós inventar de última hora um “nome-fantasia” para o Adailton! E ele pregou... Pregou ousadamente, com força e autoridade! Com um estilo “pentecostalizado” que nunca tínhamos visto nele, ex-rev. presbiteriano! O bichinho até pulava! O esforço para se comunicar foi recompensador! Ao final, tínhamos recrutado um exército de gente temente a Deus que se vinculou a nós contra a bruxaria. Aliás, esquecemos que nossa Missão se restringia aos pequeninos acusados por profecias sacerdotais, e o Adailton lhes disse que, pela Graça Abundante de Deus, NÃO TEM maldição que NÃO tenha encontrado seu fim na Cruz de Cristo! Bastava que todos cressem! E todos foram convidados a “SAY NO TO WITCHCRAFT!!!”. Falamos que nosso país também é supersticioso sim; mas que raramente afligíamos nossas vidas com tamanha escravidão cultural, agravada pela astúcia de homens que induzem ao erro os incautos!
Missão na Nigéria


Ontem, em Eket, aqui... A alegria deu lugar à vergonha e ao vexame de viver uma situação desse tipo. Os pastores que fingiam que não estavam vendo nada ao redor deles vieram nos dizer que estamos JUNTOS contra a estigmatização infantil.

A distribuição dos evangelhos “GOOD NEWS OF JESUS CHRIST” (ABBA PRESS) e o lançamento do livro “JESUS AND THE CHILDREN” foi feita debaixo de um tumulto incontrolável... Nossos guarda-costas voluntários empurravam o povo de volta para as cadeiras sob pena de não presentear quem estivesse quase arrancando os livros da mão do Clayton, com mão, roupa, Clayton e tudo junto!

Ao final, tiramos centenas de fotos com tanta gente que foi ficando tudo muito cansativo e atordoante ao mesmo tempo em que o amor para com o povo tem aumentado em nossos corações.

Já era noite escura na cidade.

Agora, a gente ia dormir e a notícia ia correr, correr.
A literatura também.
E mesmo o diabo, acusador de nossos irmãos!


Marcelo Quintela (Way to the Nation)
Eket City, onde também tem gente boa de Deus!

OBS.: Seria só publicidade se não fosse Verdade. E isso a fim de que o coração de vocês se alegre tal qual o nosso!

O sol: dono da África, da pele, dos peixes, da feira!

Missão na Nigéria


África Central, Sul da Nigéria.
Outono de 2010.

Não chove aqui. Nunca. Nem uma gota.

O Sol também não brilha. Onipresente, fica cinicamente disfarçado sob um manto cinza-amarelado que se debruça violento sobre tudo e todos.

Estamos numa estufa. Os sentidos fervem. O sol africano entorpece a razão e deixa a paisagem e os rostos parecidos com ele próprio: secos, rígidos, hostis e à flor da pele.

A região é petrolífera, o ar cheira querosene e no horizonte as refinarias cospem o fogo que jamais se apaga. Mas a vegetação é teimosamente vigorosa! Cresce sem restrição! Para cima, para qualquer lado... Para todos os lados! A mata se joga sobre as ruas. Não há calçadas, somente um tapete esburacado de asfalto estreito, sobre o qual desfila uma infinidade de motos, carros e gente. Tantas motos quantas nem São Paulo nunca viu! Tanta gente sobre as motos como nunca se pensou no Brasil: são sempre de 3 a 6 pessoas; e todos seguem numa caravana completamente destituída de sinais de trânsito, faixas de pedestres, capacetes, limites de velocidade, vias preferenciais e qualquer outra coisa que seja minimamente orientadora. O caos se auto-organiza. A bagunça é harmoniosamente regulada pelas buzinas que tocam o tempo todo. Ganha quem buzina mais, melhor, antes, sei lá... Há uma orquestra de buzinas sem maestro algum comandando a rural-urbanidade do lugar.

As casas comerciais são baixas, pequenas, escuras e tem suas placas comidas pela ferrugem. Mas nada é mais peculiar do que as feiras livres.

***

Meio-dia. A sauna seca foi ligada lá fora!

Dentro do carro, estou suando mais que em toda a vida, transpiro sal. O ar entra quente pelas narinas e mal posso abrir os olhos. Evito me mexer... Vejo tudo ao redor:

O carro não anda. Não tem espaço para circular. Estamos enfiados no meio da feira e as barracas invadem a rua, enfiadas entre os carros. O povo também invade a rua, carregando sobre a cabeça os sacos, as lenhas, o mundo! Não há miséria. Ninguém passa desnutrido.

E só há negros mesmo; não vi um branco ainda... Nem um único. Não há muitos idosos tampouco. Morrem antes. A vida é dura!

Enquanto todos olham para mim, “alvo mais que a neve”... Eu olho para tudo. As coisas aparecem diante de mim como flashs, quadros, retratos amarelos, pinturas envelhecidas encardidas de tempo e sol...

Tem um porco inteiro sobre a bancada. O rasgo fundo no pescoço é a única marca que o distingue do animal vivo. Daqui a pouco ele estará deformado a gosto do cliente, fatia por fatia. No chão, blocos de carne vermelha vão sendo defumados. O sol dá conta de tudo. As moscas dão conta da carne. Moscas. Tantas moscas como motos.

Mas a melhor exposição é a dos peixes. Mal podemos identificá-los. Não tem peixe fresco... Estão todos carbonizados, parecem de plástico enegrecido, torraram completamente, viraram esculturas mumificadas com olhos de vidro.

No demais, há muitas especiarias de sarcófago e gritos de briga. Ninguém leva desaforo pra casa. Ninguém guarda desaforo no coração. Tudo segue... Todos falam alto e ao mesmo tempo. O tempo que nem parece o mesmo, aliás... Pareço estar fazendo uma viagem ao passado. Lembro dos filmes de época que retratam os mercados a céu aberto nas cidades européias da Idade Média. Um frenético “zanzar” para se buscar o pão de cada dia, o arroz e os grãos todos, que aqui se comem com as mãos.

Até onde percebi, não há sanitarismo algum aqui no estado de Akwa Ibom. Não existe rede de esgoto, só existem fossas. E nem um único cesto de lixo. E o lixo... O lixo vai sendo socado contra a areia do chão à medida que se caminha sobre ele. Não demora a virar uma coisa só... Pisado! O chão e o lixo. O solo e seu adubo. Areia e plástico.

O carro segue. Sinto o vento quente entrar pela janela. O sol pousa no carro e abre as asas sobre nós. Fecho os olhos, escondido... (Confesso que a gente nunca se entendeu muito bem! Mas dessa vez, é óbvio que ele está me perseguindo! Só pode!)

Vou fingindo que não é comigo! Logo mais, fim da tarde, o sol – ele mesmo – também vai se cansar da própria fúria e exibir-se, lindo, como uma imensa bola laranja se escondendo no horizonte! Logo mais virá a noite de candeeiros, sem luz elétrica nas ruas.

Minha pequena caravana também segue adiante.

Procurando o futuro.

Marcelo Quintela (Way to the Nation)
Um dia desses/Janeiro de 2010
EKET, no Delta do Rio Niger
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Diário de missão: Pequeninos na Nigéria

Diário de missão
Gente amiga que caminha junto nesta missão de vida: Paz e Esperança sejam Nele!

Neste espaço estaremos postando o andamento das atividadades de nossa equipe enviada em missão à Nigéria para ajudar os pequeninos que sofrem com a bruxificação feita por pastores locais. Acompanhe tudo aqui!

Veja no canal DOSSIÊ NIGÉRIA as informações de tudo que antecedeu esta missão.

Contamos com suas orações e apoio.

Chico.

Equipe Caminho Nações

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Clique aqui para acompanhar a missão
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Video TV ABC: 10 minutos de horror na áfrica "cristã"!

Crianças Bruxas: Acusadas em Nome de Jesus


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Para contribuir para a Missão PEQUENINOS NA NIGÉRIA
CAMINHO DA GRAÇA - ESTAÇÃO SANTOS
CNPJ: 08.389.524/0001-28
BRADESCO
Agência: 2066-4
Conta: 23925-9


[O Portal dos Invisíveis]

Manndu, a menina-bruxa & dois meninos sob o facão

Missão na Nigéria



Durante a preparação do evento, fomos visitar uma jovem chamada Manndu, de 18 anos, que aos 12 fora acusada de ser bruxa. Abandonada pela mãe, a adolescente foi viver nas ruas, onde foi estuprada e engravidou. A avó a recolheu de volta ao lar onde teve seu o bebê.

Esta jovem era a cara da solidão, seu olhar era vago, completamente acostumada a não ter amigos com quem se relacionar, sequer abria a boca para conversar com a gente.

Debaixo de um teto escaldante, nós todos suávamos muito até convencer sua avó de que não havia bruxa nenhuma dentro da sua neta, senão, somente uma jovem normal aprisionada por um rótulo maldito da cultura pagã e religiosa.

Oramos por elas, e pelo bebê. Os homens da casa já morreram. Deixamos suprimento financeiro também, que as aliviaria da dura vida por um pouco.

Ao sairmos desta casa, recebemos uma ligação do CRARN, o orfanato. Eles nos chamaram porque chegaram dois novos hóspedes. Um menino de 10 anos e seu amigo de 6, foram salvos por um bom samaritano que passava bem na hora em que ambos seriam sacrificados.

Eles contaram que um irmão mais velho por parte de pai de uma das crianças, estava se dirigindo para o mato com os dois meninos para matá-los, orientado por alguém que não se sabe quem, ainda. Um casal estrangeiro as levou ao orfanato depois que tudo aconteceu.

Triste começo de mais desgraça cheia de cicatrizes no corpo e na alma desses pequeninos.

Jojo de Olivença
Akwa Ibom - NIG

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De casa em casa - encontrei gente boa de Deus!

Missão na Nigéria



DE CASA EM CASA - encontrei gente boa de Deus!


Queridos irmãos

Nestes dias estivemos visitando inúmeras casas.

Sinceramente, ontem, ao voltar para o hotel a pé, eu já não queria conversar com ninguém; fiz-me surdo aos chamados de "homem branco" que vinham dos dois lados da avenida.

Eu tinha acabado de passar na igreja evangélica que mantêm o rapaz acorrentado e lá estava ele ainda, enquanto um grupo de “irmãos” se reunia para o estudo bíblico ao lado do local onde ele estava, ignorando-o completamente.

E o pastor me vem com aquela conversa mole de que o rapaz será solto quando liberto do espírito maligno... A vontade é de tirar o rapaz à força, e acorrentar o pastor. Fiz o que eu pude; conversei com o rapaz, falei de Jesus para ele... Falei de Jesus para o pastor; um Jesus que ele não conhece; um Jesus que não acorrenta ninguém; um Jesus que não é sarcástico e que não brinca com a desgraça alheia.

Estou triste e com nojo... lamento lhes dizer isto, mas quero ir pra casa. A Nigéria 99% cristã fede. Preferiria sentir o cheiro do cigarro e da cerveja que os crentes daqui não usam; aliás, neste calorzão que tá fazendo, falta uma cerveja geladinha. Isto é pecado aqui.

E você que é evangélico brasileiro e que já está me condenando por querer uma cerveja e o cheiro do cigarro – vá se enxergar que já estou sem paciência com esta hipocrisia evangélica tola! Tomo cerveja sim, e não tô nem aí se o sujeito fuma. Ele Ceia comigo se ama a Jesus e ao próximo!

Visitamos a casa de um mórmon; e ele conhecia muito bem o trabalho do CRARN na proteção às crianças; não apenas conhecia, ele ajudava com recursos e apoio constantes. Ele nos disse: “Os evangélicos são os culpados por esta desgraça com as crianças do nosso país. Os pastores são os maiores culpados”.

Há um bom tempo deixei de ser evangélico... acho interessante que centenas ou milhares de evangélicos leiam nossos relatos e jamais façam qualquer comentário... Vocês têm razão, é vergonhoso mesmo. É uma vergonha fazer parte de algo chamado evangélico...

São os evangélicos que estão abandonando e matando as crianças; aí os evangélicos brasileiros me dirão: “Eles não são evangélicos de fato”. Pois é, todas as semanas, várias vezes, eles se reúnem aqui na Nigéria; cantam os hinos dos hinários tradicionais e os cânticos conhecidos por quase todos os evangélicos no Brasil. Abrem a Bíblia, leem, oram, intercedem, participam da Ceia dos certinhos, ofertam (e como ofertam!), falam de missões, levantam as mãos para os céus, falam em outras línguas, a mensagem dura quase uma hora, usam o nome de Jesus em tudo; dão glórias a Deus, dizem aleluia a tudo, reúnem o conselho, tratam das coisas do “reino de Deus”, lavram atas, reúnem as mulheres, as crianças, os adolescentes e os homens, fazem conferências missionárias (muitas delas aconteceram em dezembro e janeiro), tem programa de televisão, os pastores são os “homens de Deus”... tudo para Jesus...

Sim, eles são evangélicos. Evangélicos como os evangélicos do Brasil. A única diferença é que aí não matam crianças...

Recentemente estive conversando com um pastor evangélico no Brasil; ele me perguntou o que faríamos no movimento Caminho da Graça quando nos tornássemos uma igreja como as outras, uma instituição institucionalizada.

Eu respondi que nosso compromisso é com nossa geração e que não respondemos pelas futuras e nem nos preocupamos com isso, mas que oramos e trabalhamos hoje pedindo ao Senhor que nos mantenha leves e simples, sempre olhando para Jesus somente e que as futuras gerações sigam este exemplo.

E fiz a ele uma pergunta: você está me perguntando sobre uma possibilidade futura; e, você, o que fará quanto ao que não é possibilidade, mas realidade presente, a corrupção do meio evangélico? Vai continuar sendo evangélico diante de tanto desvio? Por que não faz agora, o que você fará em breve, que é romper com a religião evangélica e passar a pregar somente o Evangelho sem os acréscimos moral-doutrinário-teológicos da sua denominação?

No caminho pelas casas, encontrei gente boa de Deus; gente que ama a Jesus e o serve de coração, gente que frequenta estas igrejas e desejam ver esta tragédia acabar; encontrei também uma jovem com cerca de 20 anos e um senhor com cerca de 80, ambos afirmando que por ordem de Deus os bruxos devem morrer, sejam crianças ou não.

À jovem, pude expor com tranquilidade o Evangelho da Graça e deixá-la pensativa e receptiva a uma mensagem que ela ainda não tinha ouvido. Nos ofereceu água, coisa tão rara por aqui. O octogenário riu de mim quando lhe falei da Graça. Deve ter pensado que somente poderia ser idéia de um rapaz inexperiente.

Crianças sem ter o que fazer, perdidas, olhando para o nada. Muitas delas sem roupas e sujas, Mães que parecem não vislumbrar um futuro melhor, enquanto lavam as roupas no balde de água ou na bacia; conversei com elas ali mesmo. Enquanto lavavam a roupa, ouviam falar daquele que purifica de todo pecado e liberta de todo mal.

A um grupo de crianças, pedi que cantassem cânticos quando lhes falava sobre o perfeito louvor que sai do peito dos pequeninos abençoados por Jesus e que agora estavam sendo amaldiçoados pelos pastores. As vozes saíram lindas e afinadas. A mãe ficou maravilhada; o pai orgulhoso. A mensagem estava entregue: jamais aceitem que acusem seus filhos de serem bruxos, pois eles são amados por Jesus e a eles pertencem o Reino de Deus.

Entramos em casas, sentamos no chão do quintal, abraçamos pais e filhos de uma gente que está sendo amada por nós e que vamos deixar para trás na esperança de que outros irmãos “do bem”, gente da terra, não homens-brancos, continuem este ministério; iremos esperançosos de que os pastores que não aceitam esta prática, vão de fato sair do casulo-templo e expor o peito publicamente para pregar contra a estigmatização das crianças, sem ter medo de expor outros “colegas”. É hora de guerra e não há como fazer aliança com o inimigo. Quem é de Jesus, deve expor-se ao perigo, nem que seja apenas o simples perigo de ser rejeitado pelo grupo.

Não existe espaço para o covarde pastor anglicano que diz não concordar com a estigmatização das crianças como bruxas, mas na frente dos líderes da denominação não tem coragem de admitir. Às favas...

Leiam tudo e retenham o que é bom...

Adailton
Eket - NIG

John Okoriko - início da mobilização e confrontação

Diário de missão: 5º dia

Missão na Nigéria


JOHN OKORIKO - INÍCIO DA MOBILIZAÇÃO E CONFRONTAÇÃO

Queridos irmãos,

Há muito o que escrever, mas nossos dias tem sido intensos e a internet raramente ajuda!

Conforme foi amplamente anunciado, viemos à Nigéria para três coisas pelo menos:

1) Ajudar as ONG's que recebem as crianças abandonadas e estigmatizadas por terem sido acusadas de bruxas pelos pastores evangélicos. A ação seria realizar atividades com estas crianças incentivando-as a abraçarem o amor de Jesus que as recebe e abençoa, pois delas é o Reino de Deus.

2) Mobilizar igrejas e pastores que aceitem combater este falso evangelho nascido no inferno e confrontar os pastores que praticam esta abominação, dizendo a eles que nosso Senhor Jesus não tem parte com eles.

3) Visitar famílias interessadas em conversar sobre o assunto e orientá-las a caminhar com seus filhos na super-abundante Graça do Senhor Jesus Cristo, vivendo em paz e alegria de terem sido alcançados pelo Evangelho, no qual já não resta qualquer maldição.

Encerramos ontem a primeira fase, levando as crianças da CRARN (Children Right And Rehabilittation Network) para a praia onde o Jojo ensinou a várias delas o básico do surf e muitas conseguiram pegar uma ondinha e irem longe nela! Foi um tempo muito bom para eles, enquanto o Marcelo e eu ficamos no hotel preparando o material de divulgação para a segunda fase.

HOJE INICIAMOS A SEGUNDA FASE!

É hora de partir para as ruas e falar abertamente a que viemos e porque. Fomos conhecer o Pastor John Okoriko, distante mais de uma hora de carro daqui. Ele é um dos poucos que lutam contra este falso evangelho. Ficamos muito felizes com as palavras e o comprometimento dele com o Evangelho de Jesus.

Confirmou que, embora 99% dos nigerianos do sul sejam cristãos e frequentem as igrejas evangélicas semanalmente, a mensagem pregada não é do Evangelho de Jesus. Ao assistir a mensagem de 7 minutos do Rev. Caio Fábio ele se mostrou entusiasmado e grato a Deus por termos vindo e não apenas se dispôs a estar conosco na reunião pública que faremos no domingo às 17:00 horas, como nos convidou para encontrarmos todos os lideres da igreja dele na próxima segunda-feira.

Visitamos também o pastor Emanuel, da mesma denominação do Okoriko, mas aqui em Eket. O mesmo aconteceu lá. Grande alegria e entusiasmo dele e dos líderes; tanto o pastor Emanuel, como Okoriko afirmaram que dificilmente encontraremos pastores e igrejas que aceitem nos apoiar, pois todas elas estão envolvidas com a crença na bruxaria e praticam estes atos absurdos contra as crianças, acusando-as de serem bruxas.

Foi quando afirmamos que viemos de longe porque acreditamos que é hora de dizer NÃO a estas mentiras do Diabo.

Dissemos ao Pastor Emanuel que iremos de igreja em igreja e diremos aos pastores que rejeitam esta prática que podem contar conosco, pois pretendemos ajudá-los na pregação do Evangelho de Jesus e no testemunho corajoso e público de que esta prática é abominável e tem que acabar e que Jesus já pagou o preço da redenção e toda maldição e pecado foram encravados na cruz do calvário.

Aos pastores que apóiam esta prática horrível, diremos que eles são inimigos da cruz de Cristo e que Jesus não tem parte com eles. Não teremos medo de dizer, em nome de Jesus, que os bruxos são eles e não as crianças; esta não é hora para meias palavras; é hora de confrontar as trevas com o Evangelho sem medo de dizer àqueles que se utilizam do nome de Jesus para trazer maldição sobre outros e para enriquecerem, que eles são contra Jesus e que um dia receberão a palavra diretamente de Jesus: "Eu não vos conheço".

Ao povo que estiver reunido no campo de futebol neste domingo e na segunda, dia 18, desafiaremos a dizerem não à bruxaria e à estigmatização das crianças como bruxas; que se manifestem dizendo não no próprio coração e na própria família; que pela fé recebam a Graça que vem somente da Cruz e vivam por ela a cada dia e por onde forem anunciem que a libertação já foi dada de uma vez por todas e que nenhuma criança jamais pode ser acusada de ser bruxa e que não pode ser abandonada pela família sob hipótese alguma.

É assim que cremos e é assim que pregaremos.

Orem por nós, pois amanhã começaremos a visitar cada igreja e pastor e no domingo teremos um encontro em campo público.

Beijo em todos,

Adailton
Akwa Ibom - NIG

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As crianças na praia - surf com Jojó de Olivença

Diário de missão: 4º dia

Missão na Nigéria


VAMOS A PRAIA!!!

Quarta-feira, levamos as crianças à praia, apenas quatro de nós (Leo fotógrafo, Jojo, Leo, e eu), com a ajuda da ONG CRARN.

Os outros dois (Marcelo e Adailton) ficaram fazendo a parte das gráficas e anúncios dos eventos que irão acontecer.

Foi demais ver aquelas crianças brincando, surfando com a técnica do Jojo de colocá-los na onda, saindo daquela rotina triste e monótona deles.

Esta nação possui uma geografia com fauna e flora robusta, árida e agressiva. Possui um clima árido, árvores que produzem grandes frutos. Para terem uma idéia, quase não existem aves pequenas, pois todas as que existem são predadores, gaviões, falcões e etc...

Seguindo o exemplo da robustez, vem o ser humano; homens e mulheres fortes que gritam muito, cumprimentam-se com força, e como sua terra natal seguem assim com ar de robustez aparente; falo aparente, pois como sua terra possuem muitas fragilidades.

Mas concluindo, em meio a esta agressividade aparente, vi crianças dosséis, algumas indo à praia, outras ficando com maior desejo de ir. Mas elas sabem dividir as coisas entre elas; metade de um lápis, um pedaço de pão seco, até um batom improvisado com óleo e purpurina; e tudo sem brigar!

Também sabem abrir mão de sua vez para os outros.

Como sempre acontece, aqueles que têm menos, ou quase nada, é quem sabe dividir o seu tudo.

E paz,

Clayton Salgado
Akwa Ibom - NIG

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O jovem acorrentado na igreja

Missão na Nigéria



O JOVEM ACORRENTADO NA IGREJA

Irmãos queridos,

Acabamos de chegar da rua. Que tempo proveitoso foi este hoje; fomos caminhando pela avenida e conversando com pessoas e entrando em igrejas para falar com seus pastores.

O sentimento que temos é de que este povo não suporta mais esta opressão da bruxaria; são 99% de cristãos escravos da superstição e da mentira do Diabo. Eles anseiam por uma libertação que os livre da dependência de oráculos pastorais e da maldição da bruxaria; nosso panfleto convidava para uma cruzada de PREVENÇÃO da bruxaria; esta palavra "prevenção" deixou-os muito intrigados e nos paravam na rua para perguntar como seria possível alguém se prevenir contra a bruxaria.

Missão na Nigéria



Cada um de nós teve que gastar tempo com vários grupos para apresentar o Evangelho da Graça em Jesus em resposta a esta questão deles.

Contudo, o que mais me chocou foi a primeira igreja na qual entramos; fomos atendidos pelo pastor auxiliar e quando entrávamos para conversar com, notamos um jovem acorrentado a uma pilastra; ao fim da conversa eu pedi a ele que fôssemos até o jovem e perguntei ao pastor porque aquele jovem estava acorrentado. Ele respondeu que era para ser liberto do demônio.

Então eu perguntei se ele já tinha visto algo parecido com aquilo em Jesus; se em algum momento Jesus tinha acorrentado algum possesso ou orientado seus discípulos a fazerem isto. Que aquela prática nada tinha com o Evangelho de Jesus.

Perguntei se ele tinha lido isto em Paulo, ou Pedro e João. Ele disse que não era o responsável por aquilo, mas sim o pastor titular e os oficiais da igreja. Enquanto o Marcelo e eu ficamos conversando com o pastor-auxiliar, o Leo conversava com o jovem, o qual não estava possesso, mas apenas perturbado, possesso deste espírito que possui a quase todos aqui, incluindo o pastor-auxiliar, o titular e os oficiais daquela igreja. Possesso deste espírito evangélico que adoece a alma das pessoas.

Sim, com dor no coração, triste por presenciar uma cena tão horrível, digo que possessos estão todos estes pastores que praticam tal coisa e que demonizam a alma de gente pobre e carente de afeto, tornando-os duas vezes mais filhos do inferno.

Encontramos um pastor que prega contra a estigmatização de crianças como bruxas e que aceitou ter a entrada da igreja marcada com a tinta vermelha.

Missão na Nigéria



Vamos prosseguindo.

Orem por mim, pois deverei pregar no próximo domingo e peço ao Senhor que os nigerianos possam entender meu inglês tão diferente do deles e tão truncado.

Que o Espírito Santo fale aos corações dos que vão ouvir, para que ouçam a voz de Cristo e não meu inglês.

Orem por todos nós; pelo Marcelo, que nos lidera, pelo Leo que é nosso porta-voz com as autoridades e com todos os Nigerianos que nos servem aqui, pelo Leo Fotógrafo que é nosso olho por onde passamos, pelo Willian, que ajuda incansavelmente em tudo, pelo Clayton que é "filho desta terra" (!!!!) e se emociona com cada criança que vê e pelo Jojo, nosso surfista de coração grande.

Em Cristo, nosso querido Salvador.

Adailton
Akwa Ibom - NIG

E caiu aos pés do Senhor a coluna que não era do mal, mas da ignorância!


E CAIU AOS PÉS DO SENHOR A COLUNA QUE NÃO ERA DO MAL, MAS DA IGNORÂNCIA!

Havíamos acabado de visitar uma igreja na vila de Esit-Eket de onde também haviam saído duas crianças para o orfanato do Sam, acusadas de serem bruxos pelo próprio pai.

A Diana, da Stepping Stone Nigéria, nos disse que Esit-Eket parace competir com a vila de Oron para ver quem mais rotula crianças como bruxos.

Então, resolvemos aproveitar e ir visitar a comunidade e nos dirigíamos através da única rua “asfalto-esburacada” da vila, procurando uma estrada de terra que nos levasse mais para dentro da vila, na alma do povo, aonde pudéssemos visitar e falar de casa em casa.

Mas de repente, ali mesmo, do lado esquerdo da pista, observamos uma pequena feira, daquelas onde se vende comida exposta sobre esteiras de vime estendidas no chão e não resistimos a idéia... “Vamos parar aqui e falar onde já há bastante gente ao invés de bater de porta em porta hoje”. O grupo foi unânime, e o Emmanuel, nosso ‘motorista’, fez um retorno ali mesmo e foi adentrando com o carro pela feira que estava concentrada no canto esquerdo de uma grande área de terra batida cercada por muros velhos e portões enferrujados que certamente não fecham mais.

Missão na Nigéria



Estacionamos o carro no canto direito da feira, saímos e começamos a pensar numa estratégia de aproximação para abordar o povo que naquela altura já tinha todos os olhos voltados para aquele carro de onde não parava de sair ‘white-men’. De repente nosso guia daquele dia, o pequenino gigante Victor, que trabalha voluntariamente para o orfanato do CRARN e da mesma forma voluntária andava conosco, depois de ter sido abordado por uma pessoa local, veio até a nós e disse que antes de falarmos com o povo teríamos que pedir permissão ao Chief (chefe) da vila. Perguntamos onde poderíamos encontrá-lo e apontaram para uma área coberta no fundo da feira, onde havia um carro estacionado e algumas pessoas conversando próximo a ele.

Começamos a nos dirigir para lá, mas por um momento olhei para trás e vi que o Marcelo caminhava em outra direção. Ele ia em direção a um amontoado de postes de energia que estavam deitados no chão com moitas de capim nascendo ao redor, provavelmente mais uma promessa de luz não cumprida para mais um povo que ainda anda nas trevas do cristianismo-pagão.

O Marcelo, que era o mais branco ‘white-man’ entre nós, ficou ali de pé sobre os postes até que percebeu que aquela autorização não seria coisa de dois minutos e ele então veio até nós.

O povo também já vinha se encaminhando lentamente em nossa direção, com olhares curiosos, mas também desconfiados, por isso ainda mantinham certa distância.

Já havíamos dado o ponta-pé inicial com o Chief que, sentado numa cadeira de forma bem ‘espalhada’, exibindo uma bengala e sua barriga bem nutrida em se comparando com a maioria de seu povo, nos recebera com cordialidade quando eu disse que éramos missionários do Brasil. ‘DO BRASIL!?’ – disse ele. ‘Bom! Muito bom!’ repetiu com um sorriso no rosto.

Depois de uma breve menção sobre futebol e a vitória deles sobre o Brasil da qual se orgulham demais, introduzimos o assunto e disse o porquê estávamos ali. Enquanto mostrávamos a revista ‘Jesus and the Children’ e afirmávamos que Jesus era contra tudo aquilo, os sorrisos desapareceram imediatamente, todos ficaram sérios. Mas, de repente, ele voltou a rir só que agora com um sorriso de deboche e dizendo que nós não sabíamos do que falávamos.

Missão na Nigéria



Ele disse que ali mesmo na vila dele existiam muitas crianças bruxas, e disse que se a Bíblia afirmasse que bruxaria não existe ele acreditaria, mas que a Bíblia menciona bruxaria.

Então perguntamos a ele onde é que a Bíblia menciona bruxaria e a relaciona com crianças. E ele mencionava versículos e fazia cada interpretação que nos fazia doer os ouvidos. Chegou a dizer até que “a Palavra diz que o inimigo vem como lobo vestido de ovelha”, associando as crianças travessas que tem aparência inocente, mas um lobo dentro de si.

Cheio de indignação e espanto por falarem isto das crianças, da minha alma só saiu uma pergunta: “Como vocês tem a coragem de fazer isto?” Olhei para o lado e disse em português aos rapazes: “Esta é a coluna do mal aqui. A gente hoje não sairá daqui enquanto ela não cair”. Mas confesso que na minha pequena fé nos imaginei atravessando a noite em um debate com aquele Chief que parecia mesmo era gostar de conversar com os ‘white-men’ e exibir a eles seus “conhecimentos bíblicos”.

Nesta altura já estávamos cercados de pessoas da vila. Já não precisávamos mais da autorização, pois tudo já estava acontecendo. Foi quando o Chief pediu então um de seus amigos para pegar para ele sua maleta dentro do carro, de onde saiu uma Bíblia de estudos impecavelmente limpa e brilhando.

E ele mencionou outra passagem dizendo: ‘Em 2 Timóteo no capítulo 3 dos versos 1 a 5 diz...’:

Sabe, porém, isto: Que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.
Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.

Já percebendo onde ele queria chegar o Marcelo, lembrando que o Emmanuel tinha uma Bíblia dentro do carro, pediu que a pegasse, pois nós estávamos carregando somente os livros ‘The Good News of Jesus’ que continham somente os Quatro Evangelhos.

Neste meio tempo, o Chief foi dando sua interpretação da passagem ‘desobedientes a pais e mães’, ‘destes afasta-te’... Querendo justificar o fato dos pais estarem rotulando seus filhos de bruxos e os abandonando nas ruas.

Daí o Marcelo abriu na passagem e convidou ao Chief para relerem a passagem juntos. Dirigindo-se ao povo que já nos rodeava, em voz alta o Marcelo lia verso após verso e todos prestavam atenção. Mas quando chegou no verso 6 o Marcelo em uma pausa na leitura disse “agora prestem atenção!” e continuou a leitura:

Porque deste número são os que se introduzem pelas casas, seduzem e levam cativas mulheres néscias carregadas de pecados, levadas de várias concupiscências; que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade.
E, como Janes e Jambres resistiram a Moisés, assim também estes resistem à verdade, sendo homens corruptos de entendimento e réprobos quanto à fé.

Quando terminou de ler, o Marcelo apontou para uma criança no meio do povo e a chamou para o meio da roda.

Com sua mão sobre a cabeça daquele garoto o Marcelo perguntava ao povo, vocês acham que este menino é capaz de seduzir uma mulher? O Chief, em silêncio, fazia sozinho a releitura o texto.

Missão na Nigéria



As pessoas ainda meio com receio de se posicionar e vendo que seu Chief estava calado, timidamente só abanavam suas cabeças como quem diz ‘Não’.

O Marcelo, literalmente gritando, perguntava novamente ao povo: ‘VOCÊS ACREDITAM QUE ESTE MENINO CONSEGUIRIA SEDUZIR UMA MULHER?’

Missão na Nigéria



Finalmente ouvimos a voz do povo dizendo ‘NÃO’! E o Marcelo continuou... ‘Claro que não! Porque esta passagem está falando de homens adultos! Então arranjem outra passagem ou outra desculpa para fazerem o que estão fazendo com suas crianças, mas ESTA PASSAGEM NÃO!!!’

Missão na Nigéria



Aproveitando um momento de ‘silêncio’ comecei a mencionar as passagens onde Jesus abençoa e fala sobre crianças, todas mencionadas nas revistas ‘Jesus and the Children’ que começaram a ser distribuídas ao povo naquele momento. Enquanto eu falava, um senhor baixinho que estava no meio do povo saltou para o meio da roda, e olhando na direção do povo começou a traduzir o que eu falava, do inglês para o Ibibio – dialeto local. Talvez a maioria, mas nem todos os que ali estavam entendiam inglês e ele parece ter percebido isto e nem se voluntariou, ele simplesmente foi!

Missão na Nigéria



Coloquei a mão sobre o ombro dele e continuei a falar e ele a traduzir. Naquele instante, o Espírito Santo estava concluindo a obra. Somente uma pedrada da verdade lançada pelo Marcelo, no meio da testa daquele que se pensava um gigante, foi o suficiente para fazê-lo desabar. E, de repente, já não éramos nós que falávamos acerca daquelas coisas, mas o próprio Chief dirigindo-se ao seu povo começou a ensinar que as crianças não deveriam mais serem rotuladas de bruxas em sua vila. A obra estava completa. E chamando suas crianças à frente e pedindo aos pais que levantassem suas mãos na direção de seus filhos, convidamos a todos a orar e com eles oramos.

Missão na Nigéria



Antes de sairmos dali os fizemos prometer que não só não iriam mais rotular suas crianças de bruxas, mas também não iriam aceitar que ninguém de fora tentasse fazê-lo. Acaso alguém tentasse, que mandassem a tal pessoa embora. Também pedimos que pelo amor a Cristo e a sua Palavra que não deixassem de ensinar aqueles que os rodeiam acerca destas coisas também.

Missão na Nigéria



Fomos embora, maravilhados com o que Deus havia feito naquele lugar! Como alguém dentre nós disse: ‘foi como ver Atos acontecendo nos dias de hoje’. De fato o foi!

A Ele seja dada toda a glória! Para Ele não há nada impossível! Amém!

Leo Rocha
St. Albans – Reino Unido
02/02/2010

Carta pós-missão da Nigéria - por Diana Udua

CARTA POS-MISSÃO DA NIGÉRIA

Missão na Nigéria



De Diana Udua para o time do Caminho,

Quando homens começam a dominar outros homens, o resultado é a opressão e introdução de suas próprias regras e doutrinas para sustentar a posição de autoridade adquirida sobre os menos informados.

Num período de um pouco mais de 2 semanas, trabalhar com o time do Way to the Nations (Caminho às Nações) foi algo novo. Trouxe um despertar de consciência para o fato de que as crianças podem em breve crescer odiando Jesus que tanto as ama e zela por elas.

Visitar com eles igrejas, crianças estigmatizadas e trabalhar para mudar as crenças na “bruxaria infantil” propagadas por “pastores ignorantes” me deu a oportunidade de explorar a Bíblia por mim mesma e me equipou com respostas a questões relacionadas às crenças de crianças bruxas, introduzindo uma inteira e nova dimensão à minha paixão pelas crianças e pelo nome de Jesus, o qual tem sido tanto “bastardizado”.

A experiência também intensificou meu ódio por doutrinas que de forma alguma estão empregadas para reconstrução do relacionamento entre os homens e Deus através de Jesus. Apesar de eu não estar a procura de nenhum grupo para pertencer, eu sinceramente desejo que Deus possa encher meu coração com paz, misericórdia e amor em abundância para que eu possa então alcançar aqueles para os quais Ele me chamou para alcançar.

Algo que significou muito para mim foi perceber o fato de que as crianças têm anjos que estão constantemente perante a face de Deus. Como poderia então Deus ser tão mal a ponto de permitir que crianças se tornassem bruxos?

Missão na Nigéria



A obra é realmente grande, a colheita é abundante... mas os trabalhadores são poucos e eu oro a Deus para prover muitos mais com graça para transformar a vida das crianças de uma forma que agradará o Pai da humanidade. Eu tenho que descrever este período como outra oportunidade de aprendizado e como plataforma para intensificar meus esforços no trabalho que faço com e por estas crianças.

Fiz novos amigos, cortando as barreiras de raças, cor de pele, diferenças culturais, crenças pessoais e éticas, mas tudo com uma coisa em comum “compartilhar o amor de Cristo e o desejo de espalhar do mesmo amor para a humanidade”.

Vocês foram exemplo de paz, amor e união durante sua estadia aqui. Não me arrependo de ter investido meu tempo trabalhando com vocês. Eu oro para que a alegria que encheu nossos corações permaneça fresca e que juntos possamos fazer a nossa parte como agentes de transformação. para gerações ainda por vir.

Com amor para Leo, Marcelo, Leo 2, Jojó, Cezar, Willian e Clayton.

Diana Udua, 01/02/2010

Eket – Akwa Ibom State –Nigeria

(Diana trabalha como assistente social para a Stepping Stone Nigeria, ONG do Gary Foxcroft que luta pelos direitos da criança na Nigéria.)

Carta traduzida do original em inglês.

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Missão PEQUENINOS NA NIGÉRIA

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No meio da guerra, os filhos da paz – relato do primeiro dia após a Cruzada

NO MEIO DA GUERRA, OS FILHOS DA PAZ – relato do primeiro dia após a Cruzada

Missão na Nigéria


Nos jornais do país, líamos: “Missionários Brasileiros pregam contra a estigmatização infantil”.

***

E então, nos tornamos missionários!

Ora, vejam só... O treinamento para a África foi feito na África mesmo!

O Espírito já havia revelado – tanto aos que vieram quanto aos que nos enviaram em contribuição e oração: “Somente vão!”

Em verdade, nem nós sabíamos que era a primeira vez que uma equipe estrangeira formada por “white men” vinha, EM NOME DE JESUS, defender suas crianças dos constantes ataques que elas recebem EM NOME DE JESUS! Informaram-nos até que os poucos Missionários que vieram antes de nós, nunca chegaram tão perto, nunca se enfiaram no meio do povo, dentro das casas, vielas, favelas, igrejas, rodinhas de rua, debaixo do mesmo sol...

Para, além disso, só agora descobrimos que convocar uma Cruzada em terra estranha organizada por gente tão estranha quanto nós é algo que nunca dantes havia sido imaginado.

Ninguém vem para cá, essa é que é a verdade.

Ninguém fica aqui. Os colonizadores aqui deixaram somente a língua inglesa e a instituição cristã. Agora, eles mantêm presença distante via-exploração de recursos naturais, como é em toda África.

Vejam que até o presente momento, nenhum de nós viu ainda por aqui um único homem branco que seja, senão nós próprios. E olha que “white man” é termo genérico e diz respeito a todos e qualquer um que não sejam negros nativos.

Por isso, quando amanheceu o dia seguinte à Cruzada (Witchcraft Prevention Crusade), uma agenda de compromissos se auto-organizou. Tudo relacionado aos efeitos gerados pela Mensagem que trouxemos, associada a esse contexto acima descrito.

Pela manhã fomos à cidade de Uyo, distante em torno de duas horas de Eket, onde estamos instalados. Uyo tem tantas igrejas quanto aqui, senão mais ainda. Em Uyo, fica a sede da igreja “Solid Rock Church”. Foi lá que fomos recebidos para uma “reunião ministerial” para nos homenagear. Pastores falaram. Nós falamos. A representante das mulheres e das mães nigerianas também expressou ao microfone gratidão por ter ouvido a mensagem do Reverendo Cesar (vulgo, Adailton) e pela primeira vez, ter refletido sobre a Graça de Deus da forma como foi levada a fazer. Um político presente assegurou-nos que o governo vai manter rigidez na consolidação das leis de proteção infantil e tudo o mais. Doaram-nos uma quantia em dinheiro para o almoço (Isso foi o que mais nos impressionou, já que até agora todo mundo só tinha nos pedido dinheiro e nunca nos oferecido!).

O telefone do Leonardo não parou todo o dia. Um evangelista infantil solitário quer se unir a nós. Seu trabalho é pregar de escola em escola. Um jornalista se diz impressionado com os pensamentos de Caio Fábio, após ouvir o DVD que temos em inglês e lamenta que seus livros não estejam traduzidos. A assistente social da ONG inglesa veio nos procurar dizendo que Deus ouviu suas orações, pois faltava gente que trabalhasse na causa dos problemas e não somente nos efeitos e conseqüências. Os motoristas – dois negros imensos – que nos conduziam para lá e para cá sem entender nada, agora, entretanto, sentem-se parte do time (o que para eles, por enquanto, significa não deixar ninguém chegar muito perto de nós e nem cobrar o dobro do valor das frutas nas feiras).

Todos querem nos acompanhar. A equipe parece maior. Somos uma comunidade...

Temos uma segunda etapa agora. Mais densa e abrangente. E para tal, já encontramos os filhos da Paz!

Vamos dobrando as esquinas...

Marcelo e Equipe
Segunda-feira em Eket.

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Hoje trabalhamos em três frentes!

Missão na Nigéria


HOJE TRABALHAMOS EM TRÊS FRENTES!

Hoje fomos para a praça central da cidade de Eket, montamos lá uma tenda e nos dividimos em três grupos.

O primeiro grupo ficou na tenda distribuindo folhetos e acolhendo pessoas que por lá passavam.

O segundo grupo foi à escola modelo da Stepping Stones Nigéria e lá puderam observar a graça de Deus chegando até aquelas crianças através de alguns poucos filhos da paz.

O terceiro grupo formado por mim e pelo Adailton, foi de casa em casa levar literatura e propagar o evangelho.

Em cada casa que entrávamos, encontrávamos mulheres e homens ociosos dormindo e com a casa cheia de filhos.

Em uma dessas casas, encontramos uma menina de uns doze anos com os cabelos todos embaraçados e roupas rasgadas, sentada num banco de madeira, com seu irmãozinho com paralisia cerebral no colo.

O menino estava nu, todo atrofiado, e ela toda molhada; parecia que o seu irmão tinha urinado nela. Ela ainda estava tomando conta de mais três.

O que me chocou mais ainda é que ao seu lado estava um caderno todo amassado em que ela tentava em meio às responsabilidades de um adulto, escrever suas lições. Tentando aprender a língua inglesa, deixada aqui como herança. A única coisa deixada aqui pelos ingleses, além deste cristianismo destruidor de esperanças.

Clayton Salgado
Eket – NIGÉRIA

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Nigéria – Estamos partindo, mas vamos voltar!

Missão na Nigéria



Nigéria – Estamos partindo, mas vamos voltar!

No momento eu não consigo nem desejar abandonar o mau cheiro destas ruas e as dificuldades que o lugar impõe porque os meus sentidos de onde brotam os desejos foram invadidos, poluídos, entupidos e envergonhados.

Estamos voltando pra casa e eu vou... vou com uma batida estranha no peito... vou com a alegria de ter visto tantas famílias serem tocadas por Deus através de nós e saber que muitas delas vão amar e poupar seus pequeninos. Mas vou também com um choro engasgado na garganta pela revolta de saber que mais crianças ainda vão sofrer e ainda vão morrer bruxificados em nome de Jesus.

Até quando Deus, até quando?

Nós vamos voltar.

Eu vou voltar...

Voltar pra casa...

Voltar aqui...

Voltar para o Pai...

Nossa casa é o Pai e nosso Caminho para o Pai passa pela Nigéria.

Missão na Nigéria



Vamos passar por aqui novamente. Não sei exatamente quando... não sei por quanto tempo... mas sei o por que. Vamos voltar porque pra quase todo mundo é perigoso vir aqui... pra quase todo mundo isso nunca vai mudar... pra quase todo mundo é melhor ir cuidar do próprio umbigo. Mas descobri que aqui é a terra do umbigo mal curado.

Não vamos voltar pelas crianças que morreram ou vão morrer que fazem partir o coração daqueles pra quem a morte é em si mesmo o fim de todas as coisas e por quem não ha mais o que fazer.

Vamos voltar pelas crianças que não vão sofrer, ou pelo menos não vão morrer ou ser traumatizadas.

E, certamente por muitas crianças que nunca vão nem mesmo saber do mal do qual foram poupadas.

Nós vamos embora, mas deixando nessa terra boas sementes, sementes de amor e de paz as quais com zelo vamos cuidar de longe e confiar que os filhos da paz que aqui a nós se uniram nesta caminhada cuidem de perto, até que Pai nos traga de volta.

Certo é que não lançaremos mão do arado e não olharemos para trás... até que os pais neste país no nome de Jesus não mais sacrifiquem seus filhos mas os amem... até que o inimigo tire suas patas de cima dos pequeninos da Nigéria!

Leo Rocha dos Santos

Eket – Akwa Ibom State

Nigéria

19/01/10

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A África dos meus sonhos

A ÁFRICA DOS MEUS SONHOS

Missão na Nigéria



Não trouxe a África nem nas minhas bagagens! Nenhuma lembrancinha de aeroporto.

Pra que lembranças se não vou esquecer? Esculturas artesanais que desenham lindas mulheres negras vivendo o cotidiano de carregar lenhas eu já as tenho em casa faz tempo por iniciativa da minha esposa. Temos negras, japonesas, espanholitas, nordestinas, holandesas, indígenas... Souvenires de amor transcultural.

Entretanto, nessa primeira madrugada uma torrente de sonhos transpassou toda a noite em muitas memórias e ecos.

Sonhos. Sonhos muitos. Sons estranhos. Misturados. Faces várias de crianças tantas.

Trouxe a África comigo. Trouxe as ocultas personagens desse intercâmbio. Trouxe os rostinhos dos que ficaram no meio do caminho enquanto prosseguíamos. Sinceramente não sirvo para salvar ninguém por estatística. Ou dou um jeito logo em tudo, ou é melhor nem ter começado!

Nos meus sonhos, voltei a um vilarejo miserável em Oron, miserável cidade de Akwa Ibom State.

Missão na Nigéria



Devolvemos a essa vila um jovenzinho-bruxo todo quebrado pelo “vodu cristão”! Ele foi levado ao campo pelo irmão mais velho e quando ia ser imolado com um facão, foi arrancado da morte pelos homens do Chief Mr. Medekon, um dos maiores e mais respeitados anciãos da cidade. Conduzido ao orfanato, coube-nos investigar a causa de sua bruxificação e conversar com seus pais a respeito.

Missão na Nigéria



Mr. Medekon e sua equipe nos levaram ao vilarejo de origem. Lugar escuro, casebres de argila, aspecto tribal, sem ruas, mantido resfriado pelas palmeiras que se levantam ao redor. Parecia que todos já nos esperavam, inclusive a “vítima”, Emilia, a criança a quem o garoto, supostamente, impôs feitiços: uma menininha com cara de dor, com uns 5 aninhos, que carrega uma corcunda no meio das costas, entre as clavículas. É um edema que desvia sua coluna e aperta de dor seu pequeno peito. O chief, casado com uma enfermeira inglesa aposentada, suspeita de uma má-formação vertebral. Tomei em meu colo a criança. Ela não anda. Dói. As crianças a carregam. Sua mãe olhava esperançosa para mim. Mal sabia que eu mal sei. Toquei, apalpei, circunscrevi, pensei, consultei o arsenal mínimo de informações que a semiologia me deu durante esses anos que trabalho com neurologistas e minha sugestão diz respeito a uma tumoração que está esmagando o que tem ao redor de si. Sua origem só exames de ressonância poderão mostrar. Sua extensão aparecerá em tomografias com cortes precisos das imagens. Sua malignidade, só via-biópsia. Sua possibilidade de cura, só um neurocirurgião pode determinar; pois caso seja maligno, precisa saber se é invasivo – metido entre vértebras ou peritônio. E só será operável em função da nobreza da região no qual se está implantado. Se for ortopédico, há um longo caminho entre intervenções cirúrgicas e fisioterapias.

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O chief, apoiado sobre sua bengala-cedro, nos chamou de canto e falou baixinho para que as dezenas de moradores que nos cercavam não ouvissem: “Amigos, se vocês conseguirem curar essa moça por vias médicas que não temos aqui, daí com um único exemplo, nós derrubaremos a crença mitológica de meu povo ignorante! Façam isso por nós, por favor!”

Ele usou de uma lógica ingênua e ao mesmo tempo racional: Ora, se a causa de muitas crianças serem expulsas dessa vila (bastando para tanto confessarem que são bruxos) está relacionada ao incurável desvio ortopédico da menininha, a cura dela cessaria o fluxo de acusações e suspeitas que viviam recaindo sobre as demais crianças moradoras do local.

Missão na Nigéria



Ali mesmo, sem mesas de escritório e mapas estratégicos, acreditamos que nada nos seria impossível, mesmo sendo tão desafiador! Lembrei-me que Jesus mandou curar os enfermos e expulsar os demônios dos vilarejos e cidades que entrássemos, anunciando-lhes que o Reino é chegado! – É foi o que decidimos fazer!

Pedi à Diana – nigeriana da Stepping Stones Nigeria que estava secretariando nossa visita a essa cidade – que anotasse os caminhos:

1) Procurar um médico clínico que providencie um hospital para exames de imagens e diagnóstico, e encontrar tal médico e tais exames nem que fosse seja lá aonde!
2) Com o diagnóstico médico, ter detalhes do tratamento a ser instituído e sua morbidade;
3) Se for tratável, levar a menina Emilia para a Europa através de um grande levante de fundos junto aos amigos do “Caminho” pelo mundo, não deixando de crer na possibilidade de que uma equipe de anjos a opere gratuitamente, considerando fatores de extrema pobreza e gravidade do caso;

A tempo, ainda estávamos lá dias depois, quando a Diana encontrou um hospital-escola no centro do país que disse que faria exames imaginológicos a um valor que só saberíamos na hora da consulta (Na Nigéria, não tem SUS!). Deixamos com ela o dinheiro para o transporte da família até o hospital e vamos aguardar os resultados.

Após o “exame clínico” da criança, Mr. Medekon nos pediu mais um favor: Falar com aquele que ele considera o maior culpado pela persistência dessa relação “doença de uma criança – caça de outra”.

Pedi para chamar o pastor, então.

O homem apareceu quase imediatamente entre nós, de motinha. Suava muito debaixo de um terno que não tinha nada a ver com aquele monte de crianças peladas e adultos maltrapilhos.

Sua igrejinha não era ali perto. Não. Era exatamente onde estávamos! O chão no qual nos sentamos era o cimentado da igreja e nós nem sabíamos. E a igreja era mais um casebre dentre tantos ali, uma Assembléia de Deus abandonada pela Assembléia de Deus como a maioria das Assembléias de Deus que assembleiam-se por lá.

O Leonardo foi direto ao assunto: “Pastor Moises, qual sua culpa nisso tudo? O que você ensina a essa comunidade? Por que, apesar de sua influência cristã aqui, eles ainda crêem na bruxificação de crianças?”

O pastor estava ali, exposto a todos, cercado de dezenas de famílias, e negando sobre o olhar raivoso do chief, que tenha participação em tudo. Para nós não havia surpresa na negativa pastoral... Foi assim a Missão inteira. Diante de nós, todo mundo nega tudo ao mesmo tempo em que pede clemência!

Aproveitamos seu estado de culpa, pedimos o auditório da sua igreja p´ra levar para uma reunião comunitária todos os que nos cercavam. Ele com toda prontidão abriu suas portas e num único assobio, convocou a vila.

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As crianças e os adolescentes foram os primeiros a tomar assento. Estavam ansiosos e esforçando-se por captar o que se passa na cabeça dos adultos. Os pequeninos participaram da assembléia como quem buscar entender seus direitos à vida. Dava pena de vê-los tentando interpretar nossas brigas, discussões, apelos, réplicas, desafios, argumentações...

Missão na Nigéria



O Leo pregava em inglês contra a estigmatização infantil ensinando como Jesus tratava as crianças. O pastor Moises o traduzia para o dialeto local, especialmente preocupado em que os menores entendessem. Tal gesto foi me conquistando...

Ao final da preleção (aos berros, como tudo tem que ser ali), o Leonardo perguntou quem era contrário ao retorno do menininho quase imolado ao seio de sua casa. Pai e mãe aguardavam com expectativa a manifestação ou não de alguém.

Daí um adolescente de uns 16 anos se levanta, pede a palavra e discursa em inglês com incrível habilidade oratória: “Que garantia vocês nos dão de que o menino-bruxo não fará mais mal a minha vila?”

- “E de onde você tirou tamanha convicção de que ele é bruxo?” – disse o Leonardo.

- “Ele confessou que é bruxo! E quando um possesso confessa que o é, está confirmado seu estado!”

- “E eu sou o Barack Obama! Você acredita na minha confissão?”

- “Não! Eu não conheço você, mas sei que você não é o Barack Obama!”

- “E você conhece a criança ou o diabo dela para crer no que ela diz a seu próprio respeito após ter sido tão pressionada? Sobre pressão uma criança confessa o que dela pedirem!”

Começou então o de sempre: Eles brigam em Ibibio, o dialeto local. E uma gritaria ibibiana tomou o lugar, uns agredindo os outros, todos ao mesmo tempo, feito reunião de condomínio!

Eu só assistia enquanto fitava o belo jovem que a nós se opunha! Senti nele uma mistura de sinceridade com a presunção típica de quem pensa que nasceu sabendo coisas com as quais peitava o Leonardo e o Chief. Daí, pedi para falar. E o fiz, gritando e andando pelo pequeno recinto cinza:

“Meu amigo, quando os “white men” escreveram sobre o assunto, o teu pai nem tinha nascido. O idiota do homem branco que determinou que endemoninhados confessam que o são em nome de Jesus nem podia imaginar que vocês aplicariam isso à crianças! Agora, seus pastores pioram as besteiras que os meus escreveram e você acredita nisso como se fosse uma grande revelação??? Defenda suas crianças, rapaz! O próximo acusado pode ser seu irmão, pode ser VOCÊ! Pare de assistir filmes ridículos! Pare de acreditar em Helen Ukpabio! Creia em Jesus! E se você é o futuro mentor dessa vila, está na hora de aprender o Evangelho de Verdade, que deixaremos em suas mãos, para ensinar a todos!

Ele sabe que falávamos com autoridade, mas com amor e respeito por ele! Ao final, ele acatou com muita sinceridade nossas palavras e creu nelas de todo o coração! O Espírito me revelou que ele presidirá os “do Caminho” naquele lugar, como sábio guardião da fé.

Também sei que Deus vai curar Emilia, a pequena corcundinha. Orei debruçado sobre a cabeça dela como por um filho meu... Pedindo que o Pai a livre do Mal; e sobre o mal em suas costas passei minha própria saliva, misturada ao seu suor, untando-a assim com um bálsamo estranho até a mim mesmo... Preparando-a para a cura, seja pela medicina do Milagre ou pelo milagre da Medicina!

No dia seguinte, nossa equipe voltou até lá com material de ensino, com Evangelhos e literatura infantil. Encontraram resistência de outros homens, ausentes no dia anterior e motivados somente pelo espírito de inveja e pela embriaguez que os tomava. Eles recolheram alguns da reunião “no tapa”, mas a própria comunidade tratou de desprezá-los! Mães, pais e filhos queriam a Boa Nova do Evangelho e não os temeram. Os pais do menino pediram que assim que a “poeira abaixe” e as oposições se silenciem possamos tirar seu filho do orfanato e levá-lo de volta para casa. Por ora, estamos cuidando de seu bracinho quebrado.

No pequeno vilarejo em Oron, a Paz deu o ar de Sua Graça!

Missão na Nigéria



Ao nos despedir o chief me disse profundo: “Sei que nada faz sentido algum para vocês aqui, mas, por favor, não desistam do meu povo! Por favor!”

É esse clamor que me ecoou pela primeira madrugada pós-africana.

Essa não é África do meu Sonho, mas é a África dos meus sonhos.

Por favor, não desistam desse povo!
Por favor!

Marcelo
Santos/SP

A POEIRA NUNCA ABAIXA