A curta viagem entre um cristão e um fariseu
16 de fevereiro de 2012
Postado por Unknown
A curta viagem entre
um cristão e um fariseu
Às vezes pensamos que o que separa um jovem cristão de um fariseu
é uma grande distância. Quando eu era mais jovem, durante a revolução dos
costumes ocorrida na década de 60, pensava que havia duas coisas que me
separavam de um fariseu. A primeira era o próprio fato de eu ser jovem e
liberado. A segunda, o fato de eu pertencer àquela geração que transtornou os
costumes moralistas ensinados durante séculos. No entanto, mesmo antes de eu
encontrar Jesus, lá mesmo onde eu estava, em meio aos hippies e liberados
rapazes e moças daquela geração, a hipocrisia podia ser encontrada. Depois que
me tornei cristão, logo percebi que o farisaísmo não tem idade: ele se esconde
em qualquer lugar, e, muitas vezes, com mais facilidade ainda sob as
vestimentas religiosas.
Jesus advertiu os seus discípulos de que a condenação do fariseu
não tinha paralelo entre os demais pecadores
daqueles dias. As prostitutas, os publicanos, os pervertidos e os demais párias
daquela sociedade – com os quais Jesus estava em permanente contato – jamais
receberam tão intensas ameaças de severo juízo quanto os fariseus. Com essa
afirmação eu não estou dizendo que eles não eram também passíveis de juízo,
pelos seus próprios pecados. O que estou dizendo é que para Jesus, os pecados
deles eram pecados mais “verdadeiros”. Nem por isso eles deixaram de estar sob
o crivo do juízo de Deus; porém, com muito menor rigor, nos graus da
condenação, do que o que estava prometido para o falso religioso.
Jesus disse que “por fora” os fariseus eram perfeitos; todavia, o
interior era um lixo. O Senhor disse que era como alguém que só lava o prato de
comida por fora e que é capaz de comer no mesmo prato sujo, a vida toda (você
pode se imaginar comendo no mesmo prato sujo a vida inteira? Você pode se
imaginar bebendo água num copo sujo por toda a sua vida?). E ainda: que eles
eram como sepulcros pintados de branco – mostrando beleza enquanto a podridão
acontecia do “lado de dentro”. Isso significa que é bastante possível que as
pessoas se escondam sob as vestes religiosas para mascararem seus reais valores
interiores. Muita gente, e mesmo jovens, se esconde sob o disfarce religioso a
fim de pecar com mais “segurança”.
Psicologicamente falando, esse fenômeno de se esconder embaixo das
vestes religiosas para pecar com mais profundidade não é totalmente estranho.
Aliás, o melhor lugar para esconder nossa própria maldade é a igreja. Nós que
somos membros da igreja devemos sempre ter a coragem de perguntar o que
significa nossa presença no ajuntamento do povo de Deus. Isso porque na igreja
há sempre dois tipos de pessoas: aquelas que escondem sua própria maldade e
dureza interior sob o disfarce da fé e da moralidade, e aquelas que se conhecem
como pecadoras e que escondem a si mesmas sob o sangue de Jesus. O primeiro
grupo esconde a sua maldade. O segundo grupo esconde a si mesmo enquanto
confessa a sua própria culpa.
A questão é: como pode isso se desenvolver? Eu ouso afirmar que o
problema está nos nossos padrões de espiritualidade, os quais muitas vezes são
falsos. Por isso, quando alguém está tentado a pecar, está também,
automaticamente, tentado a esconder sua tentação sob o disfarce do radicalismo
comportamental. Dessa forma, quase sempre os cristãos, antes de caírem numa
tentação, caem em uma outra: a tentação de aparentarem uma vida que está para
além da possibilidade do pecado. Obviamente ninguém fica mais vulnerável ao
pecado do que aquele que não admite sua própria vulnerabilidade.
Acontece que isso é um círculo vicioso. Primeiro, a pessoa é
tentada. Depois ela sente a obrigação de mascarar essa realidade. Ora, quando
isso acontece essa pessoa está se condicionando psicologicamente para se tornar
um hipócrita.
E que é o hipócrita, senão aquele que não assume o que é e aquilo
contra o que luta? E quem consegue viver a vida inteira escondendo de si mesmo
e dos irmãos as suas fraquezas sem que, de um modo ou de outro, acabe caindo
diante daquilo que ele nega como sendo sua própria sedução? Daí, a inferência de que quanto mais
“espiritual” for o ajuntamento cristão, mais propício ao pecado ele será.
Justamente aqui nós estamos diante de um grande paradoxo cristão:
bem-aventurados sejam os fracos, os mansos e aqueles que são capazes de chorar.
Somente depois é que se fala dos limpos de coração. Só é limpo de coração quem
limpa o coração diante de Deus e dos irmãos, mediante frequentes confissões de
carência humana. Não existe tal pessoa limpa de coração que seja solitária e
incapaz de constantes revisões de vida. Não existe ninguém permanentemente
limpo de coração. Existem apenas aqueles que se deixam limpar mediante a
confissão e a sinceridade de uma vida que não tem medo de ser suficientemente
humana para confessar tendências em vez de assumir um outro lado de sua
humanidade: o pervertido lado de sua humanidade-inumana, que prefere esconder
tendências e viver pecados.
Quando esse tipo de comportamento se desenvolve, o que acontece é
que a tendência da pessoa é assumir cada vez mais a “santidade” publicamente, a
fim de compensar suas incoerências vividas nos bastidores. Daí que pessoalmente
eu me impressiono muito mal com pessoas cuja ênfase na santidade me soe um
tanto extravagante. Para mim, na maioria das vezes esse comportamento esconde
um conflito interior justamente naquela área que se tornou um obsessivo discurso.
Pessoas equilibradas tendem a falar de tudo, ao invés de se tornarem obcecadas
por um discurso só. E mesmo quando alguém tem uma ênfase pessoal e particular
na vida, se essa pessoa é saudável tal ênfase será vivida sem nenhum espírito
de cobrança para com aqueles que não conseguem viver a vida com o mesmo peso,
naquela área. Ora, tudo isso me leva a afirmar que muito daquilo que temos
chamado de “consagração” na vida cristã possivelmente não passe de um atestado
de nossa própria conflitividade não confessada e não assumida.
O que complica bastante a situação daquele que assim se comporta é
o fato de que quando alguém vive com tal capacidade de se disfarçar, isso pode
significar que ela está desenvolvendo uma profunda maldade em sua própria alma:
a maldade de ser tão mal, que tenta enganar a todos sob a máscara da bondade.
Vale lembrar que para Jesus esse era o mal maior na vida, o mal dos fariseus, o
mal dos religiosos, o mal dos falsos profetas, daqueles que se mostram ovelhas
mas que de fato são lobos.
Nós que somos pessoas da igreja precisamos urgentemente aprender
que a maior mentira que se comete na vida não é aquela que se diz, mas aquela
com a qual se vive. Precisamos recuperar o senso de “intimidade” e de
“interioridade” das verdades do Evangelho. Temos que pedir a Deus que nos
liberte das falsas e malignas noções de espiritualidade. É urgente que
reassumamos nossa herança Reformada, a qual afirma nossa impossibilidade
inerente para a bondade absoluta, e nos remete humildes e dependentes para a
graça de Deus. Caso contrário, corremos o risco de nos tornarmos pessoas muito
más. Aliás, a História está repleta de testemunhos dessa nossa capacidade de
nos tornarmos mais maus do que os mais maus.
Este mal vem justamente da nossa relação com o Sagrado. Nada é
mais intenso que aquilo que é divino. Quando alguém mantém uma sadia relação
com o Sagrado, tal pessoa torna-se santa e bonita. De outro lado, quando a
relação com o Sagrado acontece desde uma perspectiva de orgulho, autossuficiência
e hipocrisia, então nada faz adoecer mais do que essa versão religiosa da
maldade. Daí que Lúcifer tornou-se mau na exata proporção de sua anterior
virtude. Assim, onde abundou a graça, superabundou o pecado. Nós temos afirmado
esse princípio apenas na dimensão paulina: “onde abundou o pecado superabundou
a graça”. Todavia, Pedro coloca a mesma verdade desde uma outra referência
histórica: “o seu estado se torna pior do que primeiro”. Ou ainda: “melhor lhes
fora jamais terem conhecido o caminho da verdade do que, após o terem
conhecido, o abandonarem”.
Certa vez C. S. Lewis disse que o pior diabo é aquele que nós
pensamos que não existe. Eu ouso, respeitosamente, contrariar esse que foi um
dos maiores pensadores cristãos de todos os tempos, para dizer que, para mim, o
pior diabo é aquele ao qual nós nos “acostumamos”. Isso porque quando alguém
não sabe ou não crê que o diabo existe, está menos exposto à total força do
diabo, pelo simples fato de “sinceramente” não crer ou não admitir a existência
dele. Há um grande poder espiritual na verdade, mesmo que aquele que a
demonstre seja um ateu. Todavia, quando alguém sabe que o mal existe como mal
real e objetivo, mas a despeito disso vive em cínica indiferença para com esse
poder, tal pessoa não se torna apenas vulnerável ao mal, mas se torna, ela
mesma, parte da própria realidade do mal. Ninguém é mais maligno do que aquele
que consegue se tornar indiferente ao poder do mal enquanto admite a sua
existência. Gente assim vive uma espécie de “crente-descrença” no poder do mal.
Ora, é simples inferir que é mais fácil achar gente assim domingo de manhã na
igreja, do que num laboratório de ateus confessos. É mais fácil achar esses
jovens cantando com as mãos levantadas num culto animado, do que nas praças.
Aqueles que estão vivendo sua alienação de Deus e do diabo muitas vezes fazem
isso em absoluta ignorância; mas muitos dos que lotam nossos templos cristãos e
nossas reuniões são do tipo de gente que consegue “levantar as mãos ao Senhor”
e depois, mesmo contra a Palavra do Senhor que eles conhecem, ser capaz de
levar uma irmãzinha, companheira de louvor, “para a cama”.
Eu sei que para muita gente as afirmações que tenho feito podem
soar excessivamente fortes. No entanto, não tenho o menor temor de estar
equivocado a esse respeito. Tenho a própria história bíblica e a história da
Igreja para confirmarem tais declarações. E além disso, é só olhar em volta
para se constatar que há uma grande abundância de testemunhos contemporâneos
corroborando o que estou dizendo.
Tudo o que eu disse até aqui tem a finalidade de estimular você,
que deseja andar com Jesus, a coerentemente tomar a cruz e segui-lo. Não é
fácil assumir as dores que vêm como resultado de uma vida sincera. É duro, o
preço da verdade. Mas é a única forma de andar com Deus. É preciso ter “coragem
de ser diferente”. Não diferente apenas mediante uma postura de “fachada”. É
preciso ser diferente desde o coração. Só assim se edifica um “compromisso
capaz de fazer diferença”.
Faz quinze anos que eu venho andando com Jesus e fazendo todo o
possível para, no dia a dia, não me esquecer dessas verdades a respeito das
quais acabei de escrever. Mas uma coisa tem me ajudado muito, nesses anos: a
lembrança de que eu não tenho que ser, para ninguém, qualquer coisa além
daquilo que Deus sabe que eu sou. Isso me ajuda a não ter medo de ser gente.
Todavia, essa mesma verdade me ajuda a ser aquilo que, na graça de Deus, eu
devo ser na minha “identificação gradual na História”. E quando me sinto
tentado a pensar diferente, eu me lembro que os felizes, do ponto de vista de
Jesus, são os que têm coragem de chorar, os mansos, os que têm fome e sede de
justiça – ou seja, os que querem mais –, os misericordiosos, os que se
purificam na graça de Deus, os que vivem para construir pontes entre os
separados pelo ódio, e os que assumem a perseguição como o resultado mais
natural da sua relação com Jesus, aquele que por viver tão diferentemente dos
padrões vigentes, sofreu o preço de uma existência capaz de ser radicalmente
relevante; aquele que mostrava seu brilho pessoal a poucos (transfiguração),
mas que não teve vergonha de mostrar sua dor e verdade humanas a todos, na
cruz.
Somente vivendo com essa compreensão evitaremos a terrível
realidade de nos tornarmos hoje os fariseus que Jesus repudiou ontem. Como você
viu, não há muita distância entre um jovem e um fariseu bem apessoado. Cabe a
você jamais chegar lá.
Rev. CAIO FÁBIO D’ARAÚJO FILHO
*Texto publicado na revista do congresso Geração 90 (MPC) – Brasília,
1990.
Contribuição de Jefferson Santos Soares e Néjea Madruga
Contribuição de
Este artigo foi postado por Blog do Caminho em 16 de fevereiro de 2012 às 11:54 e está arquivado em cristãos,igreja,religiosidade. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0 feed. Você pode também deixar seu comentário aqui.
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